A Polícia Civil prendeu preventivamente, na última sexta-feira (4), um empresário, de 48 anos, suspeito de praticar ataques com ácido no mês de junho em Porto Alegre. Ele foi localizado em Curitiba, no Paraná, onde tem residência. Segundo a polícia, o homem também tem casa na capital gaúcha.
"Nós tínhamos o nome dele há aproximadamente 45 dias. A gente buscou as provas materiais para poder fazer uma boa representação", explica o delegado Luciano Coelho.
Os detalhes da prisão foram divulgados em uma entrevista coletiva nesta segunda-feira (7) em Porto Alegre. A investigação durou aproximadamente três meses. Segundo laudo do Instituto Geral de Perícias (IGP), substância usada nos ataques é ácido sulfúrico.
Foram cumpridos três mandados de busca e apreensão, na casa do suspeito em Porto Alegre, e na empresa e na residência dele no Paraná, na sexta-feira. Com o empresário, a polícia apreendeu materiais, como um tubo azul e luvas, que podem ter sido usados para cometer os ataques.
"Esse tubo azul, acreditamos que seja utilizado nos ataques, esse material vai ser encaminhado para a perícia para identificar se esse produto foi o mesmo utilizado na prática do crime", explica a delegada Adriana Regina da Costa, chefe do Departamento de Polícia Metropolitana (DPM).
Cinco pessoas registraram ocorrência policial relatando os ataques – quatro mulheres e um adolescente de 17 anos. As vítimas, atingidas nos dias 19 e 21, tiveram lesões no corpo e no rosto. O G1 conversou com quatro delas. Confira todos os relatos.
Motivação
O suspeito preferiu ficar em silêncio e só irá se manifestar em juízo. Informalmente, ele confessou a autoria do crime à polícia."Eu conversei com ele, conversei com o advogado dele, e ele admitiu a autoria do delito, de todos eles, dá para perceber que ele premeditou todos os fatos, desde a subtração da placa, para depois fazer a substituição, a compra do ácido, aquele kit tem todos os elementos para fazer a adulteração da placa", afirma o delegado Coelho.
A motivação ainda é apurada, mas a polícia acredita que tenha sido uma tentativa de amedrontar a ex-mulher, passando uma ideia de que a cidade de Porto Alegre é perigosa, para convencê-la a se mudar com ele para o Paraná.
"Querer demonstrar que aqui não era seguro. Os endereços têm uma relação com ela, todos os endereços do ataque têm uma relação com ela. Tudo leva a crer que a motivação seja essa", adianta o delegado.
Os dois se separaram pouco antes dos ataques acontecerem, e a mulher tinha uma medida protetiva contra o ex-companheiro.
Investigação
A investigação identificou, a partir do relato das vítimas e confirmou por meio de câmeras de segurança, a participação de um veículo Hyundai HB20 de cor branca nos ataques do dia 21 de junho. Na sequência, foi constatado que esse carro estava com placas que haviam sido furtadas e pertenciam a um veículo Astra, de Sapucaia, na Região Metropolitana de Porto Alegre.A polícia apurou que o suspeito alugou entre os dias 15 e 25 de junho três veículos em mais de uma locadora da Capital, sendo um deles o Hyundai HB20. Por meio do GPS dos veículos, a polícia constatou que esses carros estiveram nos locais dos ataques.
O primeiro veículo alugado foi um Logan, usado no ataque do dia 19 de junho. Segundo a polícia, ele estacionou o Logan nas proximidades e utilizou uma bicicleta para jogar o ácido na primeira vítima. O GPS desse carro aponta que ele esteve em Sapucaia do Sul, onde aconteceu o furto das placas do Astra, que seriam substituídas pelas placas do próximo carro alugado - o HB20, que foi usado nos ataques do dia 21.
Após os ataques, o homem pegou um avião para Curitiba.
Uma carta, jogada no pátio de uma residência enrolada em uma pedra, foi entregue à polícia no dia 25 de junho. O texto ordenava que o morador jogasse ácido em outras pessoas na rua e trazia ameaças caso a ordem não fosse cumprida.Na mesma data, o suspeito retornou ao Rio Grande do Sul e um terceiro veículo foi alugado. O GPS do carro apontou que ele esteve nas proximidades da casa onde a carta foi jogada.
A polícia identificou ainda que os erros de português, que constam na carta, são semelhantes a erros que o suspeito comete em postagens nas redes sociais. Na sequência, ele retorna ao Paraná.
Cronologia dos ataques
O primeiro ataque aconteceu no fim da noite do dia 19 de junho, quando um homem de bicicleta jogou o líquido no rosto de uma mulher, na Rua Santa Flora, bairro Nonoai, na Zona Sul da Capital.Dois dias depois, em menos de uma hora, foram registrados quatro ataques de carro – dois no local do primeiro caso e os demais, no bairro Aberta dos Morros.
Durante a investigação, a polícia descartou possibilidade de ligação entre as vítimas.
Análise IGP
Uma análise feita pelo Instituto Geral de Perícias confirmou que a substância utilizada nos ataques se tratava de ácido sulfúrico.
Para chegar ao resultado, o IGP teve acesso a cinco peças de roupa das vítimas. "Todas estavam com a mesma substância", afirmou o diretor do Departamento de Perícias Laboratoriais do IGP, Daniel Scolmeister.
O líquido é usado em aplicações industriais, como na fabricação de fertilizantes e no refino de petróleo. É forte, corrosivo e pode provocar queimaduras graves, como aconteceu com algumas das vítimas.
'Achei que tinha caído meu rosto'
"Quando eu olhei meu casaco, eu me desesperei, já achei que tinha caído meu rosto, já tinha me queimado, feito buraco", lembra.
Em um primeiro momento, ela pensou que estava sendo assaltada. "Esperou eu passar para se aproximar. Ele estava de bicicleta preta. Ele era bem branco, magro, sem barba, sem bigode, sem nada. Não vi cabelo por causa do capuz. Ele estava com um moletom todo branco, calça escura e sapato escuro".
"Ele falou 'olha a água'. No reflexo, eu botei a mão e consegui proteger só meu olho, mas, no rosto em si, pegou", conta Bruna.
'Fiquei com muita dor e desnorteada'
"Estava indo me exercitar e estava com fones de ouvido. Acho que ele me atacou pelas costas, então, não vi nada. Na hora, não entendi o que aconteceu. Fiquei com muita dor e desnorteada", relata.
'Fiquei apavorada'
"Nisso, senti algo no rosto. Pensei 'sacana, cuspiu em mim'. Passei a mão e começou a arder", contou. Seu pescoço e uma parte do rosto foram atingidos pelo líquido. A substância pegou também em seu casaco. "Ficou estraçalhado", comenta.
'Por sorte estava com casaco grosso'
"Quando ele chegou no meu lado, deu uma freada e estava com o vidro aberto já, era um rapaz só. E ele me arremessou um líquido, parecia um desodorante ou uma pistolinha de água. Quando arremessou, começou a queimar. Meu braço começou a arder e meu rosto meio que ardia. Pensei que era spray de pimenta", relata Leonardo.
"Ele não disse nada, simplesmente abriu a janela e jogou em mim. Uma situação muito estranha, eu fiquei sem entender."





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